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segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

\\ encontro dois


domingo (27 de janeiro)
na sede do inominável
de 10h às 13h30
com
adassa martins
andrêas gatto
carolina calcavecchia
caroline helena
diogo liberano
flávia naves
gunnar borges
natássia vello
taís feijó


estruturamos este segundo encontro da seguinte forma: como no encontro anterior, cada um tinha levado um livro para casa, neste, cada um faria uma breve apresentação daquilo que foi lido, das questões que se abriram a partir do encontro com a tal referência escolhida previamente. tentarei, a seguir, fazer um breve resumo das questões apresentadas por cada um, numa mescla com comentários meus a partir do que ouvi.

o enigma do capital, de david harvey --- por gunnar borges
espanto frente aos termos bilhões e trilhões (muito dinheiro). gunnar parte de uma crise acontecida na década de 1970, na qual grandes empresas em falência acabaram recebendo investimento do governo (investimento público) para que não falissem, visto que foram consideradas empresas grandes demais para falir. espanto.
chegamos ao neoliberalismo - que visa certo escoamento da produção excedente. me chamou atenção observar a fala de gunnar pautada numa crise ocorrida há décadas e que, no entanto, parecia alimentar a compreensão deste presente, agora. o neoliberalismo prevê a mínima participação do estado (já excessiva durante o período de crise citado anteriormente). se o estado participa menos, logo, as empresas estatais por exemplo acabam sendo privatizadas.
natássia acrescentou inúmeras características para desvendarmos um pouco mais do neoliberalismo. falou em termos como globalização, multinacionais, eficiência...
aproveito para compartilhar outro ponto de vista. fonte:
Neoliberalismo é a resposta à crise do capitalismo decorrente da expansão da intervenção do Estado, antagônica à forma mercadoria, ainda que necessária para sustentá-la. Após alguns anos de diagnóstico e de tateações, o neoliberalismo toma forma no final da década de 1970 como 'Reaganismo' e 'Thatcherismo', e consiste essencialmente em uma tentativa de recompor a primazia, e recuperar o âmbito, da produção de mercadorias. Renegando as formas social-democratas que acompanham o estágio intensivo, nega a crise estrutural e histórica do capitalismo e se volta às origens desse, do tempo do liberalismo - daí o nome de neo-liberalismo.
As políticas neoliberais perseguidas ao final dos anos 70 e no começo dos 80 por parte dos governos nacionais dos países centrais constituem precisamente uma tentativa (crescentemente desesperada) de 'remercadorização’ de suas economias.
O Estado capitalista tem que tentar isso, uma vez que assegurar as condições da produção de mercadorias é sua própria razão de ser, mesmo se, assim fazendo, Ihe escapa inteiramente o fato de que a negação da negação da forma-mercadoria não pode restabelecer essa última: privatização não é o mesmo que mercadorização. DEÁK, Csaba (1985) Rent theory and the prices of urban land/ spatial organization of a capitalist economy esp.Cap 8, nota 35, reproduzida em Deák (1989)
O arsenal do neoliberalismo inclui o farto uso de neologismos que procuram destruir a perspectiva histórica dando novos nomes a velhos processos ou conferir respeito a pseudoconceitos Surgem, assim, o pós-moderno, o desenvolvimento sustentável, os movimentos sociais urbanos, a exclusão social, os atores(sociais), as ong-s, a globalização, o planejamento estratégico..., que procuram encobrir, ao invés de revelar, a natureza do capitalismo contemporâneo.
revistas le monde diplomatique (nov/2011) e caros amigos (abril/2012) --- por natássia vello
para além da sensação de ira, tristeza, para além da sensação de ser ultrajada, natássia apontou que as revistas - que falavam sobretudo das estratégias utilizadas pelo governo para viabilizar a chegada da copa do mundo em nosso país - lhe chamaram atenção não para a questão da remoção (gravíssima) mas para os reflexos neoliberais. ou seja: ela se pergunta quais os reflexos neoliberais que se evidenciam com todas essas estratégias que estão sendo usadas?
as cidades estão virando empresas e competindo entre si. há sempre uma enorme capacidade de flexibilização das leis, de forma que as regras podem então sempre ser burladas, visto essa tal flexibilidade. natássia marca o nome de carlos vainer, da ufrj, por seu estudo sobre a cidade de exceção.
helena puxou uma observação sobre aquilo que se encontra enterrado em nossa cidade, sobre a história que foi enterrada e sobre o (irônico?!) movimento de escavar a cidade, neste momento, por conta de obras para a copa/olimpíadas e a consequente descoberta daquilo que havia sido escondido, posto em esquecimento.
um bom mote: como virar turista da própria cidade?
segue abaixo um trecho do artigo Cidade de Exceção: reflexões a partir do Rio de Janeiro (clique para download) de Carlos Vainer:
VI. Á guisa de conclusão: a cidade de exceção é o lugar da democracia direta do capitalCertamente, a categoria de estado ou regime de exceção não se aplica senão de modo parcial à cidade dos mega-eventos. As formas institucionais de democracia representativa burguesa permanecem, formalmente, operantes. O governo eleito governa, o legislativo municipal legisla... Mas a forma como governam e legislam produz e reproduz situações e práticas de exceção, em que poderes são transferidos a grupos de interesse empresarial.
Aqui, a autonomia do estado transforma e a centraliza de maneira extrema o poder. A cidade de exceção transforma o poder em instrumento para colocar a cidade, de maneira direta e sem mediações na esfera da política, a serviço do interesse privado de diferentes grupos de interesses. Não se  trata mais de uma forma de governo em que o “interesse geral” cederia lugar a formas negociais, como sugeria Ascher. Nem se trata, apenas, de governar em benefício de determinados grupos de interesses, grupos dominantes. Trata-se de uma forma nova, em que as relações entre interesses privados e estado se reconfiguram completamente e entronizam novas modalidades de exercício hegemônico. Neste contexto, torna-se regra a invisibilização dos processos decisórios, em razão mesmo da desqualificação da política e da desconstituição de fato das formas “normais” de representação de interesses. Não se sabe onde, como, quem e quando se tomam as decisões – certamente não nas instâncias formais em que elas deveriam ocorrer nos marcos republicanos. 
Concretiza-se, assim, o projeto de conferir flexibilidade e agilidade aos processos decisórios, liberando-os definitivamente  dos “controles políticos e burocráticos”. As chamadas parcerias público-privadas e as operações urbanas constituem um exemplo perfeito desta “expansão de redes de poder e correias de transmissão paralelas que se cruzam e vinculam diferentes ramos e centros”, ao largo dos partidos e do governo formal, a que se refere Jessop. 
Nestas redes de poder e correias de transmissão paralelas que constituem o terreno propício às parcerias público-privadas,  a cidade de exceção se conforma também como democracia direta do capital. 
crepúsculo dos ídolos, de friedrich nietzsche --- por taís feijó
taís trouxe seus comentários a partir do livro de nietzsche. porém, antes, compartilhou uma música do teatro mágico chamada "esse mundo não vale o mundo". da letra, destaco o primeiro trecho: É preciso ter pra ser ou não ser/ Eis a questão/ Ter direito ao corpo e ao proceder/ Sem inquisição/ A impostura cega, absurda e imunda/ A quem convém?/ Esta hetero-intolerância branca te faz refém.
a partir desta primeira referência, chegamos enfim ao nietzsche e discutimos sobre como seus conceitos são de compreensão difícil. eu, particularmente, acho fácil entender nietzsche mais pelo avesso do que pelo o que talvez ele esteja pregando. de qualquer forma, ousamos falar de conceitos como super homem, vontade poder, embriaguez (se é que podemos encarar tudo isso como conceitos).
arrisco citar um trecho de um artigo escrito por marilena chauí que dá uma impressão sobre o conceito de  super-homem por nietzsche que me parece a mais acertada:
Analisando o pensamento nietzschiano, percebemos o protótipo de um modelo de organização social, que só pode ser estabelecido em face desse rompimento com as tradições e o caminho é a revolução de Marx, a implantação do comunismo e a transformação dos meios de produção em uso social na sociedade, neste processo se elimina o que era tradicional e, gradativamente, se substitui pelos princípios do super-homem. Ressalvo que não o super-homem cínico de Zaratustra, mas um super-humano que é capaz de se apropriar da vida, dos meios para a vida e se elevar a tal ponto, que consiga preencher os vazios sem apelar, sem falsificar e sem vícios.

os irredutíveis, de daniel bensaid --- por adassa martins
adassa trouxe comentários sobre este livro, que tem como subtítulo a seguinte construção: teoremas da resistência para o tempo presente. foi interessante ouvir a sugestão de que a única forma de ser político é ter o seu olhar voltado para a produção social entre as pessoas. me soou algo como político é conceito e social é ação. algo que veremos com o conceito marxista práxis.
falou também sobre a noção de crise. e de como a crise causa uma perfuração na dominação. a partir deste momento, fiquei me perguntando qual crise devemos criar? é possível criar crises? pensando o nosso corpo, o corpo de um ator, me interessa observar como uma dada crise pode romper e desestabilizar a homeostase. sendo assim, como uma crise pode quebrar o hábito, enfraquecê-lo, problematizá-lo.
outro ponto importante foi uma foto que adassa trouxe. ela fotografou uma propaganda do banco do brasil que apresentava um esportista numa foto incrível e com a seguinte frase escrita: você não faz ideia do que ele é capaz. ou algo assim. alguém pichou a propagando e refez a mensagem: você não faz ideia do que nós somos capazes. ou algo assim. o que ficou marcado é que, a princípio, a propaganda falava conosco, transeuntes. e que, em seguida, ela passou a endereçar a nossa mensagem, de povo, para os donos da marca. é como se pichada, tivesse sua mensagem refeita e reenviada aos donos.
coloco abaixo duas ações que foram feitas em propagandas na alemanha:



nas duas propagandas, de uma mesma empresa, vemos aquele conhecido esquema da mulher vendida como  aquilo que ela não é realmente. a intervenção feita foi colar, somando ao banner, a caixa de ferramentas do programa photoshop. não sei se isso no brasil funcionaria porque não tenho certeza se a informação photoshop é muito disseminada para fora do universo do desgin e da propaganda. mas é incrível como marca e modifica a propaganda com apenas um detalhe.

primeiro como tragédia, depois como farsa, de slavoj zizek --- por flávia naves
flávia trouxe o seu parecer a partir deste livro do zizek. começou dizendo algo bastante pertinente (que mais uma vez me fez pensar em marx). ela disse que a verdade está naquilo que fazemos e não naquilo que dissemos sobre nós e sobre nossos atos. de alguma forma, é preciso fazer frente a nossa fácil capacidade de transformar em história aquilo que é ação, movimento, fagulhas de segundos.
ela leu um trecho que nos fez perceber como o distanciamento brechtiano - em alemão verfremdungseffekt - é ainda uma saída para não nos perdemos na identificação (e na catarse), para não nos perdermos na composição cheia de stanislavski. me fez pensar na via negativa de grotowski. me fez pensar de novo e mais uma vez em performance.
num dado momento, flávia falou no problema que é criar uma falsa humanidade, uma espécie de auto-piedade. e então foi uma loucura, porque ficamos muito tempo tentando entender o que era essa falsa humanidade que zizek apontava.
neste ponto, tentei explicitar aquilo que havia entendido (a partir de autores como roland barthes em a morte do autor e michel foucault em o que é um autor?):
creio eu que é importante não costurar o artista com a sua obra. a obra precisa e creio mesmo que seja justamente a ação do artista. voltando ao início da discussão trazida por flávia, pensamos que se a verdade está naquilo que fazemos e não naquilo que dissemos sobre nós, logo, a verdade está em nossa ação (criativa, no nosso caso) e não nas histórias pessoais que alimentam essas ações. não importa criar links na vida e na história pessoal para explicar gestos e ações. as ações e os gestos são como pontos finais. são fatos (duros, como pedras). quero dizer: eu não quero saber da vida de adolf hitler para entender suas ações. a princípio, eu entro em contato com elas. não preciso de histórico que me cause piedade e me faça olhar com outros olhos a realidade. a questão da falsa humanidade é essa: construímos lógicas para explicar o inexplicável. enquanto seres humanos, tal como somos, nos vemos sempre desesperados ao sentido, à costura e ao possível. mas, às vezes, não. será preciso sobrar junto às dúvidas, perdido em meio à escuridão. portanto, falsas humanidades servem para nos distanciar da dúvida, do escuro de nosso tempo (tal qual diz agamben). vamos preservar a nossa incompreensão frente ao mundo. não vamos querer vasculhar a vida para encontrar o porquê de uma ação. vamos olhar a ação enquanto eternidade. nela, existe o antes, o agora e sobretudo o depois.
por fim, a partir da leitura (e da nossa discussão de super herói), flávia relembrou um filme que amo faz tanto tempo. se chama unbreakable, estreou em 2000 e em português se chama corpo fechado, do diretor m. night shymalan. é um filme sobre super herói. o melhor deles, talvez.
lembramos também que slavoj zizek escreveu sobre a trilogia batman, de christopher nolan.

por fim, registro alguns nomes que foram falados: dos performers santiago sierra e tino segall; e de bansky (e sobre um filme sobre a obra dele).

próximos encontros: traremos estudos sobre ações que foram feitas em cidades e ações que podemos fazer. nos próximos dois encontros trabalharemos para fechar um cronograma de execução das ações (durante 2013) e também para estruturar uma a uma.

still ahead.
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