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terça-feira, 7 de janeiro de 2014

“Arquitetos, não derrubem nada!”

É preciso destruir prédios antigos para erguer imóveis “verdes” no lugar? Ao considerar a energia empregada na construção, é difícil a conta fechar

por Philippe Bovet | 01 de Junho de 2012

A demolição-reconstrução de moradias muitas vezes parece o único horizonte das políticas urbanas. Mas arrasar quarteirões sem considerar sua renovação gera tanto problemas sociais como ambientais. Essa opção ignora um dado fundamental: colocar a criatividade a serviço do que já existe é ecologicamente viável e dá resultados comprovados.

A destruição de um imóvel é questionável por duas razões. Em primeiro lugar, as pessoas sentem-se ligadas à identidade de seu bairro, preferindo mudanças progressivas a transformações radicais. Em segundo lugar, a demolição acarreta o desaparecimento de um capital de “energia incorporada” quase comparável ao estoque de gás carbônico perdido num incêndio florestal. Esse conceito designa a soma de toda a energia investida em uma edificação, da construção (extração e entrega de materiais, instalação de guindaste, deslocamento de trabalhadores) à destruição (implosão, transporte, eliminação ou reciclagem do entulho).

Ao contrário do que se imagina, demolir para reconstruir habitações energeticamente muito econômicas não representa um ganho ambiental. Segundo a empresa de energia francesa Olivier Sidler, a demolição-reconstrução de um edifício mobiliza o equivalente a entre 25 e 50 anos de seu futuro consumo anual de energia: “Sempre que possível, vale mil vezes mais a pena reabilitar do que demolir. Em termos de emissão de gases de efeito estufa, não há a menor dúvida disso”. Na Escola Politécnica de Zurique, o professor Holger Wallbaum, que trabalha com construção sustentável, concorda: “Às vezes, destrói-se um prédio de apenas dez anos, sendo-se recompensado do ponto de vista contábil, por tabelas de amortização, deduções fiscais... Então se passa uma borracha na complexa organização criada para construir o prédio”.

Se a reabilitação de edifícios ainda não se tornou norma, é sem dúvida porque, desde sua formação, os arquitetos aprendem a valorizar o novo, achando que só por meio dele poderão se expressar. Trabalhar sobre o que já existe é apenas fazer a manutenção do trabalho de outro, o que pode frustrar alguns egos.

Em 2003, Karl Viridén renovou em Zurique, sob as normas passivas,1 um edifício de 1894. Com a escola politécnica da cidade, ele realizou um estudo sobre a energia incorporada dessa renovação. Todos os materiais entraram na análise; os dados estão disponíveis em quilowatts-hora por metro quadrado por ano (kWh/m2/ano) e toneladas. Uma destruição seguida de reconstrução sob as normas passivas teria gerado um consumo de energia (incorporada e operacional) de 112 kWh/m2/ano. Uma destruição-reconstrução convencional teria um impacto de 200 kWh/m2/ano. Já a renovação sob as normas passivas atinge apenas 82 kWh/m2/ano. Expressos em toneladas, os dados são ainda mais esclarecedores: o imóvel pesa cerca de 100 toneladas.

14 contra 160

Como a renovação foi bem planejada, as necessidades foram reduzidas ao mínimo. Uma tonelada de material foi reaproveitada no local (telhas, portas aplainadas e polidas...) e apenas 4% da massa do edifício (4 toneladas) foi demolida e removida. Foram produzidos 10% de material novo (10 toneladas), sobretudo para isolamento. No total, apenas 14 toneladas de mercadorias foram deslocadas. Em comparação, a construção de um novo edifício teria envolvido a eliminação de 100 toneladas do edifício, seguida da entrega da massa de todo um novo edifício, cerca de 60 toneladas – já que os materiais atuais costumam ser mais leves. Ao todo, a operação teria implicado o deslocamento de 160 toneladas. São 14 contra 160...

A escolha entre renovação e destruição costuma basear-se no destino do edifício. Em princípio, é delicado transformar um prédio de apartamentos, com muitos cômodos e estruturas de apoio, num prédio de escritórios com espaços abertos. O novo uso deve ser mais adequado à estrutura original. Além disso, uma renovação inteligente leva tempo: “Não se pode avaliar um edifício sem conhecê-lo bem”, explica Viridén; “são muitos fatores em jogo”. Assumindo mais a posição de um coordenador de equipe do que de um chefe que dá ordens, o arquiteto deve trabalhar de maneira colegiada, cercando-se de especialistas de estrutura, energia, para determinar os compromissos necessários, se é possível revalorizar o imóvel, remover parte dele etc.

Nos últimos anos, iniciativas originais floresceram em toda a Suíça. Baar, no cantão de Zug, é de longa data uma cidade de moinhos e silos. As altas estruturas de concreto dominam a cidade. No quadro de reestruturação produtiva suíça, o moinho Obermühle foi fechado em 2001. O que fazer com esses volumes obsoletos? Acima de tudo, não fazer tábula rasa do passado: renovados em 2010, os silos da Obermühle2 foram transformados em um edifício de onze andares com cerca de vinte apartamentos e uma dezena de escritórios.3 Tudo a um custo energético muito baixo.

1    Na Suíça, as “normas passivas”, também chamadas Minergie, exigem um consumo máximo de 30 kWh/m2/ano. Elas diferem das normas passivas alemãs, Passivhaus, que fixam um máximo de 15 kWh/m2/ano.
2    Disponível em: www.obermuehle-baar.ch.
3    Reabilitados sob as normas Minergie de renovação, eles consomem menos de 60 kWh/m2/ano em aquecimento, água quente e eletricidade. Ver também: www.minergie.ch.

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Fonte: https://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=1190

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